Emissão, descarbonização e neutralização: três etapas que precisavam caber num desenho só. No infográfico ilustrado que a Mindo desenvolveu para a Suzano sobre o mercado de carbono, elas ficaram numeradas dentro de uma única cena isométrica, ligadas por chamadas aos pontos correspondentes da ilustração (behance.net). Até esse desenho existir, o projeto atravessou cinco explorações de layout.

Esta ficha registra o que a Mindo entregou nesse projeto, o que chegou pronto do cliente e onde termina o escopo de um estúdio quando o assunto da peça é técnico. A Mindo é um estúdio de motion design e comunicação visual corporativa de São Paulo, e o infográfico ilustrado é um entregável da linha de design gráfico, ao lado de one-pagers e peças de apoio.

Por que esse tipo de projeto importa

Um infográfico ilustrado é uma peça estática com um trabalho específico: pegar um assunto que hoje só existe descrito em texto e transformá-lo numa imagem que se entende de uma vez. Não é slide, não é vídeo e não é relatório resumido. É o material que circula sozinho, em apresentação, em imprensa, na intranet ou impresso, e que precisa continuar legível quando alguém recorta um pedaço dele para outro lugar.

O que torna esse pedido difícil não é o desenho. É a hierarquia. Quem encomenda o infográfico conhece o assunto por dentro, e de dentro tudo parece igualmente importante: cada etapa tem subetapa, cada termo tem definição, cada número tem ressalva. Decidir o que entra na imagem, o que vira legenda e o que fica de fora é trabalho de projeto, e acontece antes do primeiro traço.

Há uma restrição que só a peça estática tem. Um vídeo distribui a informação no tempo: o que não cabe agora entra mais adiante, e a locução carrega o que a imagem não mostra. Um infográfico não tem eixo de tempo. Tudo o que a peça diz está exposto de uma vez, e é o leitor quem escolhe por onde começa. Por isso a ordem da leitura precisa ser induzida pelo desenho, pelo tamanho, pela posição e pela numeração, em vez de ser pedida em texto. Quando essa indução não é resolvida no layout, o resultado é uma imagem correta que só se lê com um parágrafo de instrução ao lado.

Nem toda peça precisa disso. Para um material com três números e nenhuma cena, um template do Canva ou um bloco montado direto no PowerPoint resolve mais rápido e mais barato, e não há ilustração a discutir. Um estúdio entra quando a peça vai representar a marca diante de um público externo e quando o assunto só se resolve visualmente. Na Mindo, todos os animadores também são ilustradores, e nada é reaproveitado entre clientes, o que significa que a ilustração é desenhada para aquele projeto em vez de ser retirada de uma biblioteca.

Projetos de assunto técnico expõem depressa uma fronteira que vale dizer em voz alta. O estúdio estrutura e desenha o conteúdo; não o audita. A Mindo não presta consultoria de ESG nem de mercado de carbono, e também não dá curso nem treinamento sobre como apresentar o material que produz. Quem responde pelo mérito técnico do que está escrito é a área que trouxe o assunto.

O caso real: o infográfico do mercado de carbono da Suzano

O que veio do cliente, e o que o estúdio fez

A Suzano é cliente recorrente da Mindo. Neste projeto o pedido foi um infográfico ilustrado explicando o mercado de carbono. O assunto é do cliente; a ordem em que ele é explicado foi construída pelo estúdio a partir do briefing e das conversas com quem contratou. O estúdio descreve o escopo assim: “Desenvolvemos para a Suzano um infográfico ilustrado explicando o mercado de carbono, com roteiro e conteúdo estruturados pela Mindo a partir do briefing e das conversas com o cliente”.

Roteiro, aqui, não é texto de locução. É por onde o olho entra na imagem, o que ele encontra em seguida e onde a leitura termina. Foi essa ordem que a Mindo montou a partir do briefing.

Estruturar conteúdo é uma etapa de redação antes de ser uma etapa de design: agrupar o que chega espalhado, nomear cada bloco e definir o que cada um precisa dizer para que o seguinte faça sentido. A pergunta só vira visual depois disso.

  • Roteiro e estrutura do conteúdo. Construídos pelo estúdio, a partir do briefing e das conversas com o cliente.
  • Ilustração e layout. Cinco rodadas de proposta visual até uma ser aprovada.
  • A peça final. Um desenho único, com as três etapas numeradas e amarradas aos pontos da ilustração.

Cinco explorações de layout até o conceito aprovado

Uma exploração de layout é uma proposta visual inteira da peça, feita para ser comparada com outras antes de qualquer uma virar arte final. Neste projeto foram cinco até o conceito aprovado. O material público do estúdio registra o número e o desfecho; não descreve as quatro que ficaram pelo caminho, e esta ficha também não descreve.

O que o número diz sobre o processo é direto: a peça não foi desenhada uma vez. Cada exploração de layout responde de um jeito diferente à mesma pergunta de hierarquia, e só uma delas vira o conceito aprovado. É essa sequência de decisões que se contrata num projeto assim, e não o arquivo final isolado.

A cena única, e as chamadas numeradas

O conceito aprovado é uma única cena isométrica que reúne indústria, energia renovável e floresta na mesma paisagem. Numa projeção isométrica não existe ponto de fuga: nada encolhe por estar ao fundo, e um elemento distante mantém a mesma escala de um elemento à frente. É o que permite pôr domínios diferentes dentro de um quadro só, sem que a perspectiva de um esmague o outro.

Dentro dessa paisagem, emissão, descarbonização e neutralização aparecem numeradas e ligadas por chamadas aos pontos correspondentes da ilustração. As chamadas numeradas são o que amarra texto e desenho: o número está na cena e o mesmo número está no texto, e ninguém precisa procurar de que parte da imagem aquele trecho está falando. É também o que sobrevive ao recorte. Um detalhe destacado da peça continua carregando o seu número e, com ele, o seu lugar na sequência.

Numerar é uma decisão de conteúdo disfarçada de decisão gráfica. Um número afirma que existe ordem e que aquele item vem depois do anterior. Quando as etapas de um processo entram numeradas na paisagem, o desenho passa a sustentar uma sequência, e essa sequência sai do roteiro, não da diagramação.

Onde termina o escopo do estúdio

Uma separação vale para qualquer peça de design do estúdio: a identidade visual da peça é construída sobre o guia de marca que o cliente já tem. Isso é diferente de criar a marca. Cor institucional, tipografia e logotipo chegam prontos ao projeto, e defini-los é trabalho de uma agência ou consultoria de branding, não de um estúdio de comunicação visual corporativa.

Vale a mesma separação para o conteúdo. O que a peça explica sobre mercado de carbono pertence ao projeto e ao cliente, não é uma afirmação do estúdio sobre o assunto. Esta ficha registra como a explicação foi estruturada e desenhada, e não repete o que ela explica.

A mesma empresa aparece num segundo projeto do portfólio público da Mindo, em outro formato: o vídeo manifesto sobre o Ecolig, a lignina kraft de eucalipto da Suzano, narrado em primeira pessoa pela própria lignina (vimeo.com/mindo/suzano-ecolig). São dois entregáveis distintos, um estático e um em vídeo, feitos pelo mesmo estúdio para o mesmo cliente.

O que decide

Três perguntas separam fornecedores que parecem iguais quando se olha só a peça pronta.

A primeira é quem monta a ordem da explicação. Há quem receba o texto fechado e devolva esse mesmo texto diagramado, e há quem entre no briefing e construa a sequência antes de desenhar. No infográfico da Suzano, roteiro e conteúdo foram estruturados pela Mindo a partir do briefing e das conversas com o cliente. É a etapa em que a peça ganha ou perde clareza, e ela acontece longe da ilustração.

A segunda é quantas rodadas de proposta visual estão previstas. Cinco explorações de layout até o conceito aprovado é um número que aparece no prazo antes de aparecer em qualquer outro lugar. Combinar esse limite antes de a ilustração começar sai mais barato do que descobri-lo no meio do caminho.

A terceira é se a peça vai nascer como cena ou como sequência de caixas. Os dois entregáveis atendem pelo mesmo nome e se comportam de forma oposta depois de prontos: um aguenta ser recortado, o outro só funciona inteiro e de cima para baixo.

As peças públicas do estúdio estão reunidas no Behance da Mindo e no Vimeo da Mindo. Quem quiser levar um projeto ao estúdio começa pelo briefing: é dele que saem o escopo e as rodadas combinadas, e é sobre ele que a proposta é montada.