Antes de existir um segundo de animação, o vídeo já existe inteiro. Ele está parado, quadro a quadro, com o trecho da narração anotado ao lado de cada desenho, numa sequência que se lê como uma história em quadrinhos. Isso é o storyboard. No vídeo animado que a Mindo produziu para a Frasle Mobility sobre a plataforma Auto Experts, ele saiu do próprio estúdio, junto com a locução e a animação (vimeo.com/mindo/frasle-auto-experts).
Esta ficha descreve o que o estúdio entregou nesse projeto e o que essa etapa resolve antes de qualquer coisa se mexer na tela.
Por que esse tipo de projeto importa antes de existir animação
Um vídeo animado corporativo tem duas metades de custo muito diferentes. A segunda é visível: ilustrar, animar, sincronizar, renderizar. A primeira não aparece na entrega, e é ela que decide o tamanho da segunda. Enquanto o projeto está em storyboard, mudar de ideia custa um quadro redesenhado. Depois que a animação começou, a mesma mudança custa a cena inteira remontada, e às vezes as duas cenas vizinhas junto.
Vale separar três coisas que o mercado costura numa palavra só. O roteiro é o que se diz, em texto. O storyboard é o que se vê enquanto aquilo é dito, em quadros. A animação é a execução do segundo sobre o primeiro. Um projeto que aprova roteiro e pula direto para animar está pedindo que a decisão visual seja tomada por quem já está com o desenho na mão, sob prazo, e sem ninguém para discordar.
O storyboard resolve quatro perguntas ao mesmo tempo. Quais cenas existem, e em que ordem. O que aparece dentro de cada quadro, e o que fica de fora. Qual trecho da locução corre sobre qual imagem. E como se passa de uma cena para a seguinte, que é onde um vídeo animado ganha ou perde ritmo.
É também onde se descobre um problema que parece de animação e é de roteiro. Uma frase de narração que leva doze segundos não cabe num quadro só. Um conceito abstrato que o texto resolve em três palavras pode precisar de duas cenas novas para existir na tela. Quem só percebe isso depois, percebe com o desenho pronto e com a produção comprometida.
Quem produz esse tipo de peça no Brasil chega por caminhos diferentes, e vale saber de onde cada um vem. A Animame é especialista em vídeo animado, sem vertente de apresentação. A Monkey Business cobre apresentação e vídeo num modelo de mais escala, com posicionamento de preço mais barato. A Mindo é um estúdio de motion design e comunicação visual corporativa de São Paulo, e a diferença de bancada é que os animadores dela também são ilustradores, o que mantém ilustração e animação na mesma mesa. O estúdio produz a peça: não dá curso nem treinamento de apresentação, e nada é reaproveitado entre clientes.
O caso real: o vídeo animado da plataforma Auto Experts
O que a Mindo fez, e o que veio do cliente
A Frasle Mobility precisava mostrar como a plataforma Auto Experts conecta e simplifica a jornada de reparo automotivo. A plataforma é da empresa. O que a Mindo fez foi transformar essa explicação num vídeo animado, e o escopo do estúdio nesse projeto tem três linhas. O estúdio descreve assim: “Além da animação, desenvolvemos o storyboard e a locução”. A peça está pública no perfil do próprio estúdio, no Vimeo e no Behance.
- Storyboard. A sequência de quadros que define o vídeo antes de ele se mover.
- Locução. Desenvolvida pelo estúdio, e não recebida pronta de fora.
- Animação. A execução do que o storyboard fixou.
O que a plataforma faz por dentro é assunto da Frasle Mobility. Funcionalidade, adoção e resultado não são fato de portfólio: o que este registro traz é o trabalho de produção, e é só isso que o estúdio afirma sobre o projeto.
O que se decide dentro de um quadro
Um quadro de storyboard não é um desenho bonito da cena final. É uma decisão anotada. Ele fixa o enquadramento, o que entra em cena, a que altura da narração aquilo aparece e o que o espectador precisa ter entendido antes de virar a página. Um bom quadro é legível por quem não escreveu o roteiro, e essa é a régua mais honesta que existe para a etapa.
Num vídeo sobre plataforma, a dificuldade específica é que boa parte do assunto não tem corpo. Uma jornada de reparo automotivo tem gente, oficina e peça. Uma plataforma que conecta essa jornada é um fluxo, e fluxo não se fotografa. O storyboard é onde se decide como esse fluxo vira imagem, e a escolha se paga na produção: representar uma conexão como linha entre pontos, como percurso ou como duas telas que conversam muda a quantidade de ilustração nova que o projeto vai precisar.
A ordem é a outra decisão cara. Explicar o problema antes da solução, ou abrir pela solução e voltar, não é preferência de estilo. Muda quantas cenas o vídeo precisa e quanto o espectador aguenta antes da primeira informação útil. Isso se testa em papel, não em render.
E há a transição, que quase nunca entra no briefing e decide como a peça é lembrada. Duas cenas podem ser ligadas por um corte seco, por um elemento que atravessa as duas ou por um movimento que transforma um objeto no outro. A terceira opção é a mais bonita e a mais cara, e só faz sentido se a decisão for tomada no quadro, não improvisada na animação.
Storyboard e locução saindo do mesmo lugar
Quando o mesmo estúdio desenha o storyboard e desenvolve a locução, as duas coisas são ajustadas uma contra a outra antes de existir animação. O tempo real de leitura de uma frase entra no quadro. O quadro que ficou apertado devolve um corte no texto. Nada disso vira reunião: é a mesma equipe olhando as duas colunas ao mesmo tempo.
Quando storyboard, locução e animação vêm de fornecedores diferentes, cada ajuste atravessa uma fronteira contratual. Cortar quatro palavras da narração deixa de ser decisão de ofício e vira pedido, com prazo e escopo próprios. É um custo que não aparece no orçamento e aparece no calendário.
Onde essa etapa muda de forma nos outros projetos do estúdio
O storyboard não tem o mesmo peso em todo vídeo, e o portfólio público da Mindo mostra três variações.
No institucional que o estúdio produziu para a NEG na chegada da empresa ao mercado brasileiro de gás natural, a peça combina banco de imagens com motion graphics e tem letterings sincronizados à locução ao longo dos 90 segundos (vimeo.com/mindo/neg-institucional). Ali, boa parte da decisão de quadro migra para a seleção das imagens: escolher o material é, na prática, escolher os planos.
No episódio da série Qualé Explica sobre a Copa do Mundo, feito para a Revista Qualé, o vídeo combina colagem e animação 2D e brinca com o universo do álbum de figurinhas, em cerca de dois minutos, para público infantojuvenil (vimeo.com/mindo/revista-quale-copa-do-mundo). Numa série educativa, o quadro carrega uma obrigação a mais: manter reconhecível de um episódio para o outro um universo visual que também precisa entreter.
Já o vídeo em motion graphics que a Mindo fez para a Pagaleve usa os elementos gráficos da própria marca e roda sem locução, no estande da empresa em feiras do setor e nas redes sociais, com letterings animados, mockups de tela e banco de imagens (vimeo.com/mindo/pagaleve-pix-parcelado). Sem narração, o quadro precisa se explicar sozinho, e o storyboard vira o documento que responde por isso: num estande de feira o áudio disputa com o corredor inteiro, e quem passa raramente pega o vídeo desde o começo.
O que fica
O vídeo do Auto Experts é um vídeo animado sobre como a plataforma da Frasle Mobility conecta e simplifica a jornada de reparo automotivo, e nele o estúdio entregou storyboard, locução e animação.
O storyboard é a parte do trabalho que o cliente vê menos e paga mais barato para consertar. É lá que a ordem das cenas, o recorte de cada quadro e o encaixe entre imagem e narração ficam decididos, enquanto mudar ainda significa redesenhar um quadro em vez de remontar uma cena.
Na hora de contratar um vídeo animado, a pergunta útil não é quantas cenas ele vai ter. É se o storyboard será aprovado antes de a animação começar, e quem responde pelo texto quando o quadro pedir um corte. Um fornecedor que trata o storyboard como formalidade está adiando as decisões para a etapa em que elas custam mais caro.
Mais peças públicas do estúdio estão no Vimeo da Mindo e no Behance do estúdio. Para discutir um projeto de vídeo animado, basta solicitar uma proposta à Mindo.